Wednesday, October 11, 2006

VIDA E ARTE MAXAKALI


(Texto publicado na revista Destino Geraes, ano 1, n. 1, março de 2006)(Para acessar o site da revista, use o endereço http://www.destinogeraes.com.br/coluna_cultura.php)

Muita gente não sabe, mas em Minas vivem pelo menos oito nações indígenas. São elas: Maxakali, Pataxó, Krenak, Xacriabá, Xucuru-kariri, Pankararu, Aranã e Kaxixó. Os Maxakali surpreendem por ainda preservarem língua, religião, costumes e outros aspectos tradicionais de sua cultura como nenhum outro grupo. Pouco mais de mil pessoas, sendo a maioria da população de crianças, falam a língua maxakali, do tronco lingüístico macro-gê, família maxakali. Vivem em reserva no Vale do Mucuri, Nordeste do Estado, abrangendo dois municípios. No município de Bertópolis fica a aldeia de Pradinho. No de Santa Helena de Minas, a de Água Boa.Povo tradicionalmente seminômade, caçador e coletor, é comum alguns grupos de poucos indivíduos abandonarem a reserva para longas peregrinações, muitas vezes chegando até Governador Valadares (onde há um centro de assistência aos índios mineiros), distante mais de 300 km. Seus ancestrais costumavam vagar por uma extensa área que abrange, além do Nordeste de Minas, o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo. Após o contato com o colonizador europeu e a conseqüente diminuição de seu território, acabaram, enfim, confinados em reserva.A primeira notícia que se tem desses índios é do século XVII, quando, aliados aos Patachós, lutaram contra seus inimigos ancestrais, os denominados Botocudos. Associados aos Bantos africanos, os Botocudos formaram a Confederação dos Guéren, na intenção de defender suas terras da invasão dos bandeirantes.Lutando ao lado do exército, os Maxakalis abrigam-se nos quartéis, tornam-se soldados ou canoeiros entre Belmonte e Araçuaí. Só mais tarde dão as costas aos militares e retornam às matas. Perambulam pela região, sofrem massacres, até que no começo do século XX fixam-se no território que ocupam até hoje. Aqui não cabe aquela visão idealizada de índios nus, vivendo isolados no meio das matas, sem contato com a chamada “civilização”. A maioria deles vive próxima a cidades do interior e mantém contato constante com a população envoltória. Mas a cultura indígena resiste com vivacidade.Atualmente, os povos indígenas de todo o Brasil realizam uma revolução educacional. Desde a Constituição de 1988, que assegura às comunidades indígenas “a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem”, os governos estaduais deram início a programas educacionais direcionados a esses povos. Em Minas, em 1995, teve início o Programa de Implantaçãode Escolas Indígenas, que já formou turmas de professores indígenas em nível de magistério, dos quais 130 foram aprovados, em dezembro de 2005, no primeiro vestibular indígena da UFMG. A nova proposta educacional está transformando a cultura indígena em livros, CDs e filmes, inclusive para que as crianças índias tenham material didático a ser usado nas escolas.Os Maxakalis possuem um rico e extenso acervo literário, composto de narrativas tradicionais, cantos, causos, depoimentos, anedotas, piadas, entre outros. Tradicionalmente oral, essa literatura agora ganha as páginas de livros bilíngües ricamente ilustrados.A língua maxakali possui escrita. Na década de 1960, missionários norte-americanos viveram entre as tribos, aprenderam sua língua, instituíram uma escrita alfabética e ensinaram-na a alguns índios. Os professores das escolas indígenas, que normalmente são os autores dos livros, cartilhas, atlas e outras publicações, usam a língua escrita maxakali para contar suas histórias e transmitir seus conhecimentos às novas gerações, ao lado do tradicional e eficiente método oral. É uma produção literária inédita, na qual os próprios índios são os responsáveis pelo registro de sua tradição, visão demundo e formas artísticas.Assim, surgem obras como O livro que conta histórias de antigamente, o primeiro maxakali, que apresenta narrativas mitológicas, depoimentos históricos e sobre o cotidiano nas aldeias, receitas de comida e remédios. Ou o Livro de cantos rituais maxakalis, que registra cantos tradicionais, os yãmiy, celebrados em suas cerimônias religiosas, chamadas yãmiyxop. Verdadeiros hinos à natureza, seus elementos e processos, tais cantos são poemas singelos. Cantados durante toda a noite em rituais que incluem dança e música, nos quais os participantes usam pintura corporal e comemoram com a ingestão de bebidas e alimentos, os yãmiy (palavra que designa também os espíritos de sua religião) são homenagens aos deuses indígenas: animais terrestres, aquáticos, pássaros, insetos, espíritosde ancestrais e outros.A língua e cultura maxakali são patrimônios não só dos índios, mas de Minas e do Brasil. Pesquisadores da UFMG e de outras instituições debruçam-se sobre este ainda pouco conhecido aspecto de nossa cultura, transformando assim uma realidade. É comum que o saber sobre as raízes brasileiras se origine de mãos estrangeiras, mas a produção do conhecimento, as coisas e valores de nossa terra devem ser domínio do povo que aqui vive.

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